ESTRANHO NO NINHO
Com Encontros e Desencontros, Bill Murray conquista de vez a crítica sem mudar uma linha do estilo peculiar que fez sua fama
Por: Roberto Pujol
Hollywood parece não levar Bill Murray a sério. Essa afirmação pode até ser redundante, já que o sujeito vem fazendo o público rir há mais de três décadas. Talvez fosse mais correto dizer que Hollywood não encara como deveria a comédia, tratando-a apenas como um gênero lucrativo, e não como uma forma de arte. No caso de Murray, que se enquadra naquele segmento de humor excessivamente irônico e irreverente, a discriminação é ainda maior. Mas isso pode mudar. Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, pode dar ao ator sua primeira indicação ao Oscar.
Murray talvez nem esteja preocupado com prêmios ou elogios. Afinal, para quem teve uma infância e juventude nada produtiva, chegar aonde chegou não deixa ser um grande feito. Quinto dos nove filhos de Lucille e Ed Murray, o ator nasceu em 21 de setembro de 1950 em Wilmette, no subúrbio de Chicago, Illinois. Foi um alunos incorrigível e preguiçoso. Só gostava de esportes e de teatro. Chegou a fazer parte de um grupo de escoteiros, mas foi expulso. Aos 20 anos foi preso por tentar contrabandear uma pequena quantidade de maconha no Aeroporto Internacional de O'Hare.
Numa última tentativa de dar um rumo à sua vida, foi testar seu talento, ao lado do irmão mais velho, Brian Doyle-Murray, no Second City Trupe. Neste célebre grupo de improvisação de Chicago, fundada por gente de respeito como Alan Arkin, conheceu John Belushi e Harold Ramis, com quem descobriu ter uma ou duas coisas em comum. Em 1974, mudou-se com o irmão para Nova York: haviam sido convidados por Belushi para integrar o time do The National Lampoon Hour, um novo programa cômico de rádio que também contava com o talento de Chevy Chase e Gilda Radner. Criado pela hoje extinta revista National Lampoon - uma concorrente da lendária Mad - o programa pulou para o teatro e logo despertou o interesse das redes de TV. Todo esse pessoal voltou a se encontrar no novo show Saturday Night Live. Começava aí uma nova fase do humor americano.
PILANTRA DA PESADA
Por motivos financeiros, a panelinha teve de se dividir num primeiro es-tágio. Murray foi parar em um programa da rede ABC, o Saturday Night Live With Howard Cosell. Só no final de 1976 ele ingressou no elenco do SNL, em sua segunda temporada e já começando a fazer história. Em rede nacional, Murray exibiu seu talento, entre o esnobe e o deboche e caiu nas graças do público. Mais que isso, tirou de letra a responsabilidade de substituir Chevy Chase, que abandonou o show e foi tentar a sorte no cinema.
Durante os quatro anos seguintes, Murray deitou e rolou. Criou quadros e personagens memoráveis, ganhou um Emmy e ajudou a consolidar a audiência do SNL. Em 1980, o comediante estava pronto para seguir a trilha de seus companheiros na tela grande. Apesar de já ter participado de dois projetos com a turma do SNL - a dublagem do desenho Shame of the Jungle (1975) e a comédia The Rutles, All You Need Is Cash (1978), uma paródia aos Beatles capitaneada por Eric Idle, do Monty Python -, sua estréia como protagonista aconteceu com Almôndegas, inesperado sucesso de bilheteria. O filme não era grande coisa, mas marcou a primeira de suas bem-sucedidas parcerias com o diretor Ivan Reitman. Nos anos que se seguiram dois sucessos consolidou sua condição de astro ascendente: O Clube dos Pilantras, dirigido pelo amigo Ramis, e Recrutas da Pesada, novamente sob a batuta de Reitman.
O GOSTO DO SUCESSO
Murray, entretanto, ainda não havia chegado ao topo. Recém-casado com Margaret Mickey Kelley, com que teve dois filhos (Home e Luke), fez uma participação não-creditada em Tootsie, interpretando o melhor amigo de Dustin Hoffman. Logo depois, reuniu-se com Reitman no megasucesso Os Caça-Fantasmas (1984) e experimentou o gostinho de ser popular de verdade. Essa brincadeira repleta de efeitos especiais, sobre um esquadrão que caça-assombrações em Nova York, deu uma indicação ao Globo de Ouro ao ator. Por ironia, ele também conheceu o lado ruim da fama no mesmo ano.
Com cacife para encarar qualquer projeto, escolheu estrelar e co-escrever a adaptação do romance O Fio da Navalha, de Somerset Maugham, que já havia rendido um clássico nos anos 40. A crítica foi impiedosa com o filme e a desastrosa atuação de Murray, fora de sintonia com o personagem e suas crises existenciais. Durante algum tempo o ator tirou o time de campo, fazendo "só" a melhor seqüência de A Pequena Loja dos Horrores. Em 1988, voltou à comédia em Os Fantasmas Contra-Atacam, versão atualizada de Um Conto de Natal, de Charles Dickens.
TRÊS VEZES ANDERSON
Em má fase, o jeito foi encarar o ine-vitável Os Caça-Fantasmas 2 (1990), ao lado de Reitman e dos velhos compa-nheiros do original, e voltar ao sucesso. Mais maduro, estreou na direção com o simpático Não Tenho Troco, comédia sobre um trio de assaltantes em Nova York, que também produziu e estrelou. Em seguida, travou um duelo de interpretação com dois vencedores do Oscar, encarando Richard Dreyfuss em Nosso Querido Bob, e Robert De Niro em Uma Mulher para Dois. Durante as filmagens deste último, conseguiu quebrar o nariz de seu ilustre companheiro. Completou a boa fase ao encarnar o meteorologista rabugento de O Feitiço do Tempo, uma fantasia deliciosa dirigida e escrita por Ramis.
Até Três É Demais, a comédia pela qual ganhou os prêmios de coadjuvan-te da Crítica de Nova York e Los An-geles, além de outra indicação ao Globo de Ouro, fez pequenas e marcantes participações em Ed Wood (de 1994, ano em também se divorciou) e em Space Jam (1996). Também esteve à frente de comédias descartáveis como Uma Herança da Pesada, O Homem que Sabia de Menos e Kingpin, dos irmãos Peter e Bobby Farrelly. Atuou ainda no suspense Garotas Selvagens e assumiu o papel de Polonius em Hamlet (2000), adaptação contemporânea da obra de Shakespeare.
No mesmo ano, Murray aceitou fa-zer o papel de Bosley em As Panteras, versão da popular série de TV dos anos 70. Durante as filmagens ficaram notórias as brigas e discussões ocorridas entre os integrantes do elenco. O episódio mais grave envolveu Murray e Lucy Liu, que o acusou de atropelar suas falas e prejudicar sua performance. Murray não participou da maratona para a divulgação do filme, mas um dos produtores, confirmando sua personalidade imprevisível, disse que não se surpreenderia se ele aparecesse a qualquer momento. Ninguém achou estranho quando ele se recusou a fazer parte da seqüência As Panteras Detonando - ele foi substituído por Bernie Mac. Melhor para Murray, que voltou a trabalhar com Wes Anderson em Os Excêntricos Tenenbaums.
Murray vive há vários anos no subúrbio de Nova York com a figurinista Jennifer Butler, sua parceira em vários filmes e mãe de seus três outros filhos (Jackson, Cal e Cooper). Amante do beisebol, é proprietário de um timeco das divisões secundárias, o Riverdogs. Esteve presente no último Festival de Veneza para promover Encontros e Desencontros. Falou de sua admiração por Sofia Coppola, se disse condenado ao estereótipo dos papéis cômicos e conheceu George Clooney no bar do hotel. Tornaram-se amigos, saíram para a farra e só voltaram aos seus quartos quando o dia amanheceu. Hoje ele finaliza The Life Aquatic, novamente sob a direção de Anderson, e a dublagem de Garfield, versão live-action do famoso cartoon de Jim Davis. Murray, obviamente, emprestará a sua voz ao gato mais cínico e preguiçoso do mundo. Cara de um, focinho do outro.
Matéria publicada na revista SET edição 199 - janeiro/2004
Por: Roberto Pujol
Hollywood parece não levar Bill Murray a sério. Essa afirmação pode até ser redundante, já que o sujeito vem fazendo o público rir há mais de três décadas. Talvez fosse mais correto dizer que Hollywood não encara como deveria a comédia, tratando-a apenas como um gênero lucrativo, e não como uma forma de arte. No caso de Murray, que se enquadra naquele segmento de humor excessivamente irônico e irreverente, a discriminação é ainda maior. Mas isso pode mudar. Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, pode dar ao ator sua primeira indicação ao Oscar.
Murray talvez nem esteja preocupado com prêmios ou elogios. Afinal, para quem teve uma infância e juventude nada produtiva, chegar aonde chegou não deixa ser um grande feito. Quinto dos nove filhos de Lucille e Ed Murray, o ator nasceu em 21 de setembro de 1950 em Wilmette, no subúrbio de Chicago, Illinois. Foi um alunos incorrigível e preguiçoso. Só gostava de esportes e de teatro. Chegou a fazer parte de um grupo de escoteiros, mas foi expulso. Aos 20 anos foi preso por tentar contrabandear uma pequena quantidade de maconha no Aeroporto Internacional de O'Hare.
Numa última tentativa de dar um rumo à sua vida, foi testar seu talento, ao lado do irmão mais velho, Brian Doyle-Murray, no Second City Trupe. Neste célebre grupo de improvisação de Chicago, fundada por gente de respeito como Alan Arkin, conheceu John Belushi e Harold Ramis, com quem descobriu ter uma ou duas coisas em comum. Em 1974, mudou-se com o irmão para Nova York: haviam sido convidados por Belushi para integrar o time do The National Lampoon Hour, um novo programa cômico de rádio que também contava com o talento de Chevy Chase e Gilda Radner. Criado pela hoje extinta revista National Lampoon - uma concorrente da lendária Mad - o programa pulou para o teatro e logo despertou o interesse das redes de TV. Todo esse pessoal voltou a se encontrar no novo show Saturday Night Live. Começava aí uma nova fase do humor americano.
PILANTRA DA PESADA
Por motivos financeiros, a panelinha teve de se dividir num primeiro es-tágio. Murray foi parar em um programa da rede ABC, o Saturday Night Live With Howard Cosell. Só no final de 1976 ele ingressou no elenco do SNL, em sua segunda temporada e já começando a fazer história. Em rede nacional, Murray exibiu seu talento, entre o esnobe e o deboche e caiu nas graças do público. Mais que isso, tirou de letra a responsabilidade de substituir Chevy Chase, que abandonou o show e foi tentar a sorte no cinema.
Durante os quatro anos seguintes, Murray deitou e rolou. Criou quadros e personagens memoráveis, ganhou um Emmy e ajudou a consolidar a audiência do SNL. Em 1980, o comediante estava pronto para seguir a trilha de seus companheiros na tela grande. Apesar de já ter participado de dois projetos com a turma do SNL - a dublagem do desenho Shame of the Jungle (1975) e a comédia The Rutles, All You Need Is Cash (1978), uma paródia aos Beatles capitaneada por Eric Idle, do Monty Python -, sua estréia como protagonista aconteceu com Almôndegas, inesperado sucesso de bilheteria. O filme não era grande coisa, mas marcou a primeira de suas bem-sucedidas parcerias com o diretor Ivan Reitman. Nos anos que se seguiram dois sucessos consolidou sua condição de astro ascendente: O Clube dos Pilantras, dirigido pelo amigo Ramis, e Recrutas da Pesada, novamente sob a batuta de Reitman.
O GOSTO DO SUCESSO
Murray, entretanto, ainda não havia chegado ao topo. Recém-casado com Margaret Mickey Kelley, com que teve dois filhos (Home e Luke), fez uma participação não-creditada em Tootsie, interpretando o melhor amigo de Dustin Hoffman. Logo depois, reuniu-se com Reitman no megasucesso Os Caça-Fantasmas (1984) e experimentou o gostinho de ser popular de verdade. Essa brincadeira repleta de efeitos especiais, sobre um esquadrão que caça-assombrações em Nova York, deu uma indicação ao Globo de Ouro ao ator. Por ironia, ele também conheceu o lado ruim da fama no mesmo ano.
Com cacife para encarar qualquer projeto, escolheu estrelar e co-escrever a adaptação do romance O Fio da Navalha, de Somerset Maugham, que já havia rendido um clássico nos anos 40. A crítica foi impiedosa com o filme e a desastrosa atuação de Murray, fora de sintonia com o personagem e suas crises existenciais. Durante algum tempo o ator tirou o time de campo, fazendo "só" a melhor seqüência de A Pequena Loja dos Horrores. Em 1988, voltou à comédia em Os Fantasmas Contra-Atacam, versão atualizada de Um Conto de Natal, de Charles Dickens.
TRÊS VEZES ANDERSON
Em má fase, o jeito foi encarar o ine-vitável Os Caça-Fantasmas 2 (1990), ao lado de Reitman e dos velhos compa-nheiros do original, e voltar ao sucesso. Mais maduro, estreou na direção com o simpático Não Tenho Troco, comédia sobre um trio de assaltantes em Nova York, que também produziu e estrelou. Em seguida, travou um duelo de interpretação com dois vencedores do Oscar, encarando Richard Dreyfuss em Nosso Querido Bob, e Robert De Niro em Uma Mulher para Dois. Durante as filmagens deste último, conseguiu quebrar o nariz de seu ilustre companheiro. Completou a boa fase ao encarnar o meteorologista rabugento de O Feitiço do Tempo, uma fantasia deliciosa dirigida e escrita por Ramis.
Até Três É Demais, a comédia pela qual ganhou os prêmios de coadjuvan-te da Crítica de Nova York e Los An-geles, além de outra indicação ao Globo de Ouro, fez pequenas e marcantes participações em Ed Wood (de 1994, ano em também se divorciou) e em Space Jam (1996). Também esteve à frente de comédias descartáveis como Uma Herança da Pesada, O Homem que Sabia de Menos e Kingpin, dos irmãos Peter e Bobby Farrelly. Atuou ainda no suspense Garotas Selvagens e assumiu o papel de Polonius em Hamlet (2000), adaptação contemporânea da obra de Shakespeare.
No mesmo ano, Murray aceitou fa-zer o papel de Bosley em As Panteras, versão da popular série de TV dos anos 70. Durante as filmagens ficaram notórias as brigas e discussões ocorridas entre os integrantes do elenco. O episódio mais grave envolveu Murray e Lucy Liu, que o acusou de atropelar suas falas e prejudicar sua performance. Murray não participou da maratona para a divulgação do filme, mas um dos produtores, confirmando sua personalidade imprevisível, disse que não se surpreenderia se ele aparecesse a qualquer momento. Ninguém achou estranho quando ele se recusou a fazer parte da seqüência As Panteras Detonando - ele foi substituído por Bernie Mac. Melhor para Murray, que voltou a trabalhar com Wes Anderson em Os Excêntricos Tenenbaums.
Murray vive há vários anos no subúrbio de Nova York com a figurinista Jennifer Butler, sua parceira em vários filmes e mãe de seus três outros filhos (Jackson, Cal e Cooper). Amante do beisebol, é proprietário de um timeco das divisões secundárias, o Riverdogs. Esteve presente no último Festival de Veneza para promover Encontros e Desencontros. Falou de sua admiração por Sofia Coppola, se disse condenado ao estereótipo dos papéis cômicos e conheceu George Clooney no bar do hotel. Tornaram-se amigos, saíram para a farra e só voltaram aos seus quartos quando o dia amanheceu. Hoje ele finaliza The Life Aquatic, novamente sob a direção de Anderson, e a dublagem de Garfield, versão live-action do famoso cartoon de Jim Davis. Murray, obviamente, emprestará a sua voz ao gato mais cínico e preguiçoso do mundo. Cara de um, focinho do outro.
Matéria publicada na revista SET edição 199 - janeiro/2004

